TRANSMEDIA

06/03/2009

Maravilhoso:

Estadão – Link
02/03/2009
Quando uma história é apenas o começo…

Com a cultura digital, surge uma nova modalidade de ficção: a
‘narrativa transmídia’

Alexandre Matias

A carinha sorridente amarela respingada com uma gota de sangue é só o
ponto de partida. A partir dela, descortina-se não só um universo de
super-heróis decadentes e de superpoderes usados como armas militares,
como uma série de pequenas histórias paralelas que acontecem
independente umas das outras e em formatos diferentes. Juntas, todas
essas narrativas contam uma história complexa e multifacetada, que
dificilmente teria o mesmo impacto caso contada de forma linear.

Watchmen, a clássica série em quadrinhos cuja aguardada adaptação
finalmente chega aos cinemas na próxima sexta-feira, é um dos muitos
exemplos de um novo tipo de ficção – a narrativa transmídia. Nem tudo
na história original de Alan Moore e Dave Gibbons era contado em forma
de quadrinhos – cada episódio terminava com páginas que poderiam
trazer um capítulo de um livro fictício, o prontuário médico de um dos
personagens, recortes de páginas de jornal.

Mas com a internet e a digitalização das mídias, essa narrativa que
acontece em diferentes plataformas aos poucos vem deixando nichos e
tomando conta do mercado de entretenimento. Sites, celulares, redes
sociais, games, aplicativos e blogs – peças-chave da cultura digital –
são hoje responsáveis por expandir universos criados em livros,
filmes, histórias em quadrinhos e programas de TV. Mas eles vão além
de simplesmente levar uma grife de entretenimento para outras
plataformas. Interligando-se com o produto principal, eles criam
tramas paralelas e ações fora da internet que expandem ainda mais a
história central. Assim, cria-se um novo vínculo com o antigo
leitor/espectador/ouvinte, agora convidado a participar da narrativa.

Mas isso não pressupõe produção de conteúdo ou aquela interatividade
em que pode-se mudar o rumo da trama principal. O elemento
participativo da narrativa transmídia reside no fato de que a história
original pode ser ampliada à medida em que a experiência da mesma
possa ser provada em diferentes meios – e isso não quer dizer que
esses enredos paralelos tenham que se encontrar num ponto final. “A
convergência ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais e
em suas interações com outros”, explica o teórico Henry Jenkins,
criador do termo “narrativa transmídia” em seu livro Cultura da
Convergência, lançado no Brasil. Nessa edição, nos aprofundamos no
tema, a começar pela própria campanha de lançamento do filme Watchmen
– transmídia por natureza.

Convergência na cabeça

Ainda sobre o assunto narrativa transmídia, entrevistei o autor do
termo, Henry Jenkins, cujo livro Cultura da Convergência foi lançado
no Brasil.

***

‘O formato transmídia é irreversível’

Entrevista com Henry Jenkins, escritor, pesquisador e diretor do
programa de mídia comparativa no M.I.T.

O pesquisador Henry Jenkins tem um currículo invejável – além de
diretor do programa de mídia comparativa no Instituto de Tecnologia de
Massachussets (MIT), ele é autor de nove livros que lidam com as
relações entre mídia e consumo, entre eles Cultura da Convergência
(Aleph, R$ 59), em que cunhou o termo “narrativa transmídia”
(transmedia storytelling). Mas prefere ser referido como “aca-fan” –
um acadêmico que também é fã do tema que trata. Ele conversou com o
Link em entrevista realizada em sua visita ao Brasil, no final do ano
passado, sobre as transformações que o universo digital impôs à mídia.

Em seu livro, quando o sr. se refere a convergência, não está falando
especificamente de aparelhos, mas de mídias e narrativas.
Acho que estamos vendo que existe uma série de intersecções entre as
diferentes mídias ao mesmo tempo em que há uma proliferação de novas
tecnologias. Não acho que existe – ou que existirá – uma caixa mágica
para onde todas as mídias convergirão. O ponto central é que as
pessoas estão criando novas relações com a mídia e ela está se
fragmentando. Meus estudantes carregam mais dispositivos e aparelhos
de comunicação do que um soldado no Vietnã – a mídia é tão central em
suas vidas, mas ao mesmo tempo eles têm ferramentas e plataformas
diferentes ao ponto de duas pessoas sentadas uma ao lado da outra
terem opções bem distintas para cada coisa. Não acho que isso vá parar
em um futuro próximo, vejo o processo da convergência seguindo cada
vez mais contínuo e mais dispositivos, configurações e aparelhos
surgirão e não acho que aparecerá um dispositivo definitivo tão cedo.

O mesmo acontece com a mídia?
Hoje a mídia habita diferentes plataformas com o mesmo conteúdo. Logo
todo o conteúdo nessas diferentes plataformas conversarão entre si e
se completarão, tornando-se transmídia.

Mas estamos falando em nichos?
Ainda. As estratégias transmídia começaram primeiro em programas de TV
que têm apelo entre nerds e geeks, que são os primeiros entusiastas
desse formato. Agora estamos vendo isso para programas de TV para
adolescentes, como Gossip Girl. Ainda não vemos estratégias como essas
para programas de TV que mirem nos adultos porque ainda não
encontraram um público que possa se relacionar com isso, mas quando a
geração Pokémon chegar à idade adulta, isso terminará, pois tudo se
tornará transmídia.

As pessoas terão tempo para consumir esse tipo de narrativa?
Boa pergunta. O cidadão comum terá tempo e disposição para ir no site,
jogar o game, ler o anime ou será que eles só quer ver um filme ou um
programa de TV? Hoje isso ainda é uma opção, as pessoas ainda podem
conhecer histórias de um jeito ou de outro, mas na medida em que essa
nova opção torna-se mais frequente, veremos que a resistência a ela
diminuirá e esse formato será irreversível.
O que eu acho que vai acontecer – na verdade, já está acontecendo – é
que aquilo que não for transmídia vai se tornar transmídia nas mãos do
público. Falando apenas sobre programas de TV, se você reparar, vai
perceber que os melhores produtos transmídia não foram criados pelas
empresas que produzem os programas, mas pelos fãs. Veja a Lostpedia,
que é uma Wikipedia feita por fãs de Lost, e você terá uma quantidade
de informações sobre o seriado que seus produtores nunca produziram ou
lançaram.

Isso não acena para cenários apocalípticos do tipo ‘o fim da TV’?
Se você analisar historicamente, não existe mídia morta. Há
tecnologias que ficam velhas, mas não mídia morta. Veja o som gravado,
por exemplo. Nós partimos do cilindro de cera rumo aos arquivos de
MP3, mas desde que o som começou a ser gravado, ele segue
sobrevivendo. O teatro não foi superado pelo cinema, como o cinema não
foi ultrapassado pela televisão, da mesma forma como a TV também não
vai ser banida pelo digital. Todos ainda estão lá. O que estamos vendo
é o acréscimo de camadas na paisagem midiática e assim ocorrem
mudanças nas relações entre essas camadas. E da mesma forma a
estrutura da indústria tem mudado: o rádio já teve um papel central na
sociedade, mas hoje ele vem sendo posto de lado, como o teatro já foi
um dos principais temas da mídia e hoje é literalmente um nicho. Isso
não quer dizer que a TV irá acabar. Por mais que as pessoas se
divirtam ou usem o computador para uma série de coisas, a TV faz
coisas que nenhuma outra mídia faz e isso vale para todas as mídias. O
que muda é a importância delas para a sociedade.

Mas podemos imaginar um cenário em que, por exemplo, Hollywood se
torne um nicho?
Sim, como aconteceu com a ópera, Hollywood pode sim se tornar um
nicho, que precise de subsídios do governo para continuar existindo.
Mas essa indústria tem tentado se posicionar na nova paisagem de mídia
e explorá-la de forma eficaz, conectando-se com outras mídias, como
quadrinhos. O mesmo tem acontecido com a TV, que está se adaptando
muito rapidamente à distribuição digital. Meus alunos no MIT assistem
cada vez mais televisão fora da televisão – seja baixando programas
ilegalmente em torrents, comprando de forma legal pelo iTunes ou
assistindo aos programas nos sites das emissoras. Mas ainda é TV,
ainda é uma narrativa episódica.

Mas o disco como conhecíamos, o álbum, não morreu?
A indústria da música está voltando para as canções, que sempre foi a
unidade básica na história do som gravado. O álbum é um capítulo
específico dessa história, um experimento que falhou. Podemos imaginar
que, no futuro, teremos um espaço sonoro, que seria um ambiente
virtual em que você pode passear por ele e aí ouvir diferentes músicas
dentro de um mesmo contexto – que é a ideia por trás de um álbum, só
que adaptada à realidade digital. Já podemos dizer que games já estão
fazendo isso, afinal o Guitar Hero e o Rock Band já são esse tipo de
ambiente em que é possível encontrar diferentes canções organizadas
por níveis de dificuldade. Haverá novos padrões para configurar e
organizar o conteúdo, que ainda é baseado em canções. Não que a canção
seja a única estrutura possível, mas agora é ela que parece funcionar
melhor.

enviado por andré stangl

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